A pontualidade veio do berço. Nos álbuns de família, a vida de Villas-Bôas Corrêa começa a ser contada pelas fotografias do casamento de Maria Saphira Villas-Bôas, a Marita, com Merolino Raymundo de Lima Corrêa, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1923...
...e de sua lua-de-mel em São Paulo, onde os futuros pais posaram para o lambe-lambe de uma praça não identificada no dia 2 de março. Iniciava-se ali, com nove meses de antecedência, uma trajetória marcada pelo rigor com prazos, compromissos e horários.
Aos 3 anos, em 1926, no quintal da casa de seus avós maternos, na rua São Francisco Xavier, 127, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O cavalo ainda era de madeira, mas já era seu brinquedo preferido.
Em Angra dos Reis, então uma típica cidade do interior à beira mar, com a família materna. O grupo posou em 1927 diante da casa de seu avô, o quase xará e também jornalista Luiz de Castro Villas-Bôas – Seu Lulu, pela nomenclatura doméstica. O neto é o menino de cabelo longo e calça curta, encostado nos joelhos do avô, na primeira fila. Está ao lado da mãe, sentada à esquerda. Ver os dois juntos nos álbuns de família é coisa rara, porque Marita morreu quando o filho tinha oito anos.
A casa em Carmo do Rio Claro, Minas Gerais, onde o pai foi juiz em 1928. O filho só voltaria à cidade cerca de 70 anos depois, quando a reforma do fórum se inaugurou com um retrato de Merolino Corrêa na parede. Encontrou a casa de pé. Pediu para visitá-la. E constatou, espantado, que se lembrava nos mínimos detalhes de cada cômodo, à medida que os novos moradores iam abrindo as portas à sua frente.
De sultão, no Carnaval de 1929, em Carmo do Rio Claro. A fantasia é um dos últimos vestígios concretos de sua convivência com a mãe. Meses depois, Marita contraiu actinomicose, uma infecção tratada na época com punções a sangue-frio. A doença iria matá-la em dois anos, depois de longo isolamento.
Órfão de mãe e com o pai, viúvo, de volta à carreira no judiciário em comarcas interioranas de Minas Gerais, ele ficou no Rio de Janeiro com os avós maternos – Seu Lulu, que o ensinou desde cedo a gostar de teatro, e Evangelina Saphira Pires Villas-Bôas, que só a custo saía de casa. Mas lá está na foto de calçada, quitando seus débitos com o footing carioca, que foi moda na década de 1930. No centro remodelado, de bulevares largos, pisos de pedra portuguesa e marquises à prova de sol e chuva, só se andava nos trinques. Villas-Bôas Corrêa enverga o uniforme de gala do Instituto La-Fayette, onde estudou do primário ao complementar. Ele nunca mais moraria em outra cidade, mesmo quando a República se mudou para Brasília e a reportagem política migrou, em revoada, para a nova capital. O Rio é que foi deixando de ser o lugar onde ele podia andar sem susto a qualquer hora do dia ou da noite.
O pai casou-se pela segunda vez em 1936. E a nova mulher, Carlota Cruz de Lima – ou melhor, Tatá – em vez afastá-lo, aproximou-o do filho que deixara no Rio de Janeiro. Sem jamais morar com ela, Villas-Bôas Corrêa se ligou instantaneamente à madrasta, filha de um fazendeiro de Cataguases, Arthur Cruz, que o acolheu como neto eletivo. A fazenda do Retiro, que ele, a rigor, só visitava nas férias, passou a ter em sua memória um espaço desproporcional ao tempo que ocupou em sua vida. As longas viagens a cavalo, as conversas ao pé do lampião até chegar o sono e a afinidade com Seu Arthur marcaram-lhe o vocabulário e até o estilo. Ele conheceu Cataguases na adolescência. Mas enterrou o umbigo na roça.
Aos 15 anos, com os Cruz, o clã completo reunido no terreiro de café da fazenda do Retiro, aproveitando a passagem do retratista itinerante, que percorria as estradas de Cataguases como um caixeiro-viajante de fotografias. Villas-Bôas Corrêa está à direita, na fila de trás, magro, mas inflado pelas ombreiras do terno branco. Ao centro estão os fazendeiros Guiomar e Arthur, cercados de filhos, genros, noras e netos – a tradicional família mineira que ele passou a chamar de sua.
A sede do Retiro, onde ele aprendeu a tirar leite, escovar crinas, encilhar montarias – em resumo, conversar com fazendeiros como se fosse um deles. Só deixou de visitá-la quando encontrou a casa cercada de chão batido por todos os lados e, na porta da cozinha, a nova proprietária, explicando que derrubara o velho pomar por não gostar de árvores no terreiro. Eram as fruteiras plantadas por Arthur Cruz.
Na sela, em 1941. Ao rever no álbum esta fotografia, 67 anos depois, ele se esforçou para recordar o nome e as características pessoais... do cavalo. Não conseguiu. Mas deixou claro seu ponto-de-vista sobre quem-é-quem em sua hierarquia afetiva
Ruminando uma palestra doutrinária na Igreja Positivista do Brasil, em 1942. Ele é o ouvinte de olhar perdido à esquerda. Está ao lado de Frederico Pinheiro de Carvalho, seu colega do La-Fayette – ele sim, um positivista convicto, que o convidara a fazer o teste de iniciação em Augusto Comte. Foi sua primeira e última tentativa de filiar-se a qualquer confraria. Ele sempre gostou de futebol sem torcer por um time, de política, sem ter partido, e de convicções, sem ter fé
No casamento com Regina Maria Bittencourt de Sá, em 25 de março de 1946. Ele estava no quarto ano de Direito e presidia o Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (CACO), metido de corpo e alma na ebulição estudantil que sucedeu o Estado Novo. Mais de cem colegas encheram a igreja. Jogaram tanto arroz nos noivos, que o celebrante mandou os convidados encerrarem a cerimônia na calçada em frente à igreja de São José.
O casal se conheceu na tijucana rua Professor Gabizo, começou a namorar em 1939 ...
... fez bodas de ouro em 1996 e continuava soprando velas no Natal de 2007, quando a nora Márcia Leite os fotografou, empunhando bolos, no Natal em Muri
E os dois parecem não levar ao pé-da-letra a promessa de manter o casamento até que até que a morte os separe.
Juntos, em complô, com certo humor macabro, registraram solenemente a declaração de que querem ser cremados.
Adulto, em Cataguases. A presença do cunhado Flávio Sá, à sua direita, indica que a essa altura ele era homem casado, provavelmente pai de dois filhos. Nem por isso arredara os pés do terreno de sua adolescência. Suas férias, durante muito tempo, foram invariavelmente em Cataguases. As pedras do rio Pomba identificam o lugar como a fazenda Barão de Camargo, de Geraldo Cruz, herdeiro da amizade que Villas-Bôas Corrêa tivera por seu pai, o Seu Arthur do Retiro. Décadas mais tarde, Villas-Bôas Corrêa teria a primeira chance de construir sua própria casa de campo. Optou por dar o dinheiro a Geraldo, para reformar a sede da velha fazenda. A casa de pau-a-pique desmoronou ao primeiro toque do mestre de obras. Mas a que se ergueu em seu lugar e continua lá até hoje é o resultado dessa prodigalidade
Documento de uma caçada bem sucedida – ou seja, desastrosa para a paca. Ele teve fama de ser bom atirador, com sua carabina Remington 22. E, até o fim da década de 1950, as capoeiras da fazenda Barão de Camargo ainda davam para essas demonstrações de pontaria. Não havia por lá fazendeiro que se prezasse sem sua matilha de cães-de-caça, e domingo de caçada era dia de festa. Faz tempo que as pacas e as capoeiras desapareceram, na desmatada Zona da Mata mineira. Mas a vontade de caçar acabou para Villas-Bôas Corrêa antes mesmo que as pacas.
Em 1948, entrevistando no palco o locutor César Ladeira, “a grande voz da revolução paulista de 1932”. Villas-Bôas Corrêa produzia e apresentava o quadro Convidado de Honra num show mensal, como técnico de propaganda do Serviço de Alimentação da Previdência Social, seu primeiro emprego. A série lotava o auditório do SAPS na praça da Bandeira, pegando carona nas celebridades criadas pelo rádio. E ele nunca mais perderia o gosto por platéias e microfones. Nem perderia chance de citar o diretor Umberto Peregrino Seabra Fagundes, como exemplo de administrador no serviço público. Entre outros motivos, porque o chefe criara um teatro, uma discoteca e uma biblioteca numa instituição que só precisava encher barrigas.
Na formatura pela Faculdade Nacional de Direito, em 1947. A essa altura, seu rumo profissional já era outro, e ele sequer voltaria à universidade para buscar o diploma. Quem tomou essa providência, uns dez anos depois, foi o advogado Joaquim Simões de Faria, seu ex-colega de turma e amigo da vida inteira.
Aos 27 anos, de óculos Ray-Ban, na quadra do Corpo de Bombeiros da Praça da Bandeira, onde jogava vôlei na equipe do SAPS. Já era míope até debaixo de cortada
De óculos, também, no tatame da Associação Cristã de Moços, como aluno – quase devoto – do professor Yoshimaza Nagashima, pioneiro do judô no Rio de Janeiro. Villas-Bôas Corrêa levou o judô a sério. Era faixa marrom.
O investimento na forma física – mantida pelo o judô, o vôlei, a natação e as aulas de ginástica na ACM – renderam-lhe, entre outros dividendos, esta caricatura de Hilde Weber, então chargista do jornal O Estado de S. Paulo. O desenho foi rabiscado num verão em Araruama, por volta de 1960. Villas-Bôas Corrêa correu na calçada da praia, entre Ipanema e Leblon, ida e volta, cinco dias por semana, até os meniscos protestarem, aos setenta e tantos anos.
Mas o esporte teve lá seus custos, como esta perna engessada. A foto, feita na redação de A Notícia, depois de sofrer uma entorse em partida de vôlei na ACM, parece uma paródia involuntária da pose do jornalista Carlos Lacerda em 1954, como vítima do atentado na rua Toneleros – ou sejam, soprando com ar estóico o pavio da crise que levou ao suicídio o presidente Getúlio Vargas.
No batente da reportagem geral, em 1950, cobrindo para A Notícia uma fuga de presos da Ilha Grande, nas matas de Parati, então uma cidade colonial isolada no litoral caiçara do Rio de Janeiro. Ele é o segundo do grupo, à esquerda.
Na década de 1950, Villas-Bôas Corrêa criou nos jornais A Notícia e O Dia os Comandos Parlamentares, uma fórmula de reportagem que ficava a meio caminho entre o jornalismo investigativo e o inquérito político, transferido das comissões do Congresso para uma imprensa inebriada pela democracia. O assunto era ele quem escolhia. E os deputados atendiam ao convite sem saber aonde iriam parar. No caso, trata-se de uma visita de surpresa ao Serviço de Assistência ao Menor, com o deputado Frota Aguiar.
Com o Ministro da Justiça Tancredo Neves, num Comando Parlamentar que virou pelo avesso o Manicômio Judiciário...
...a ponto de flagrar, na masmorra dos loucos perigosos – este porão de paredes cegas, com grades no teto – um preso se ensaboando com excrementos. A cafua foi desativada no mesmo dia pelo ministro. (Fotos: Achiles Camacho)
À frente dos Comandos Parlamentares, subiu mais de dez favelas, no tempo em que não se pedia licença para entrar nos morros cariocas. A experiência ficou sendo sua medida definitiva de quanto o Rio de Janeiro mudou para pior. Meio século atrás, a única exigência do protocolo era a parada na birosca, para a recepção pelos líderes comunitários, quase sempre modestos bicheiros. Esta caranguejada no Morro dos Macacos testou os estômagos dos deputados Heitor Beltrão (sentado, com a mão na massa), Breno da Silveira (de terno branco) e Medeiros Neto (de batina, porque, além de parlamentar, era padre). (Foto: Achiles Camacho)
Num país de território continental ligado por estradas de terra, ele viajou nesta camionete 42 dias até Fortaleza, cobrindo a seca de 1952, na companhia dos deputados Armando Falcão e Breno da Silveira, quatro repórteres e de Achiles Camacho, o fotógrafo da comitiva.
Com o deputado Breno da Silveira e um vaqueiro a caráter, de calça, chapéu e gibão de couro, na caatinga desfolhada pela seca, em mais uma foto de Achiles Camacho. Duas malas cheias de fotografias em preto e branco foi tudo o que restou das grandes reportagens que fez nessa época.
Em visita ao Parque Indígena do Xingu, em 1951. Na reserva, criada nos confins do Mato Grosso pelos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas-Bôas, parentes distantes confirmados pela pesquisa que foi à raiz da árvore genealógica, ele provou carne de macaco moqueado e bebeu cauim fermentado na saliva das índias, mas não guardou uma só linha de seus textos, para recontar a história. (Foto: Amaro Rosa)
Mostrando intimidade com o manejo da fauna silvestre, ao encarar um desafio dos colegas de A Notícia. A jibóia era mansa, habituada a atuar em público como coadjuvante de espetáculos alheios. Chegara à redação no pescoço de uma entrevistada.
Ao lado do jornalista Otacílio Lopes, o Cara de Onça, no front da reportagem política – a chamada “Terra de Ninguém”, que a imprensa ocupava entre a tribuna e a presidência da casa, no plenário da Câmara, no Rio de Janeiro. Dali ele assistiu, entre o repórter Oyama Telles e o líder da maioria Gustavo Capanema, ao “maior discurso” de sua carreira – o do deputado e líder udenista Afonso Arinos, declarando a falência institucional do governo Vargas, em agosto de 1954. Enquanto Arinos falava, ele conta, a bancada governista ia esvaziando a sala, “como quem deixa o campo de batalha”.
Em Natal, com o vice-presidente Café Filho, recém-eleito, à beira do precipício que levaria o político do Rio Grande do Norte, em cinco anos vertiginosos, a assumir o governo, com o suicídio de Getúlio Vargas, e a deixar o cargo sem concluir o mandato. Na década de 1950, a política brasileira podia ser trágica e encrespada por tentativas de golpe, mas certamente não era monótona – o que, provavelmente, explica sua capacidade de manter o interesse profissional pelo assunto ao longo de, pelo menos, 60 anos de cobertura diária.
Com o presidente Juscelino Kubitschek, numa entrevista coletiva em que dá para reconhecer – além das costas envergadas de Villas-Bôas Corrêa, em primeiro plano – os jornalistas Pompeu de Souza e o Mauro Salles. (Foto: Manchete)
Com o ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros, que concorria em vão, pela segunda vez, à presidência da República, em 1960. Patrono do slogan “rouba mas faz”, Adhemar podia não ser um candidato sério a eleições presidenciais. Mas, cobrir suas campanhas enriquecia as conversas dos repórteres políticos com histórias, em geral, impublicáveis. Em segundo plano, vê-se o médico José Leopoldo de Lima, de Araguari.
Com a velha Remington, nos bons tempos das laudas datilografadas em aparas de bobinas para rotativas e do teclado duro, que requeria uma digitação enérgica, quase atlética. De meados dos anos 80 em diante, quando se converteu aos processadores eletrônicos de texto, ele falaria da velha máquina de escrever com alguma nostalgia, cada vez que o computador lhe aprontava uma das suas. (Foto: Romualdo César)
Em Buenos Aires, com o presidente Arturo Frondizi, acompanhando uma viagem do chanceler San Thiago Dantas para uma conferência latino-americana que entrou para os anais da família...
...por conta do telegrama que Villas- Bôas Corrêa despachou para casa, no Rio de Janeiro, com as últimas notícias da Argentina: “Vestirei casaca alugada pt”. Aí está ele, de fatiota, no salão. (Foto: Enrique Colm)
Com o governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto, no aeroporto da Pampulha. Mais tarde, como ministro das Relações Exteriores do governo Costa e Silva, Magalhães Pinto o levaria para seu gabinete, num alto cargo de salário pífio. Valeu, porque, como assessor do ministro, Villas-Bôas Corrêa foi chamado às pressas ao Itamarati, em 13 de dezembro de 1968, dia do AI-5, para dar ao chanceler e político mineiro um palpite inútil, mas clarividente: “O Sr. acha que fica bem para sua biografia entrar na vida pública assinando o manifesto dos Mineiros e sair assinando esta porcaria?”
Na sucursal carioca do jornal O Estado de S. Paulo, entre o jornalista Prudente de Moraes Neto e o político baiano Octavio Mangabeira, cuja oratória lhe dá saudades do tempo em que os discursos parlamentares enchiam as galerias da Câmara dos Deputados, em vez de esvaziar o plenário.
Em 1973, frente a frente com o presidente Richard Nixon, cobrindo a visita aos Estados Unidos do presidente Emilio Garrastazu Medici, pelo jornal O Estado de S. Paulo. Durante a viagem, passou três dias em Nova York. Era a primeira vez que ia à cidade. E não voltaria lá por, pelo menos, um quarto de século. Mas fez questão de aproveitar as poucas horas de folga, à margem da agenda oficial, para caminhar pelo Harlem, num tempo em que o bairro tinha a reputação de ser indevassável. Tudo para trazer de volta uma história típica de repórter, para contar em casa.
Em 1974, conseguiu finalmente construir sua casa de campo, nos oito mil metros quadrados de um terreno comprado à prestação em Muri, Nova Friburgo. Durante as obras, fez planos de aposentar-se e criar galinhas na serra. Agüentou seis meses de inatividade. E voltou ao jornalismo, curado para sempre da tentação de parar. Nem por isso deixou de virar friburguense fanático, tratando a cidade como ela fosse a Cataguases da Serra Fluminense.
Duas estações de Muri: o verão na piscina, onde, setentão, só caía para nadar metodicamente de um lado a outro por, no mínimo, meia hora...
...e o inverno debaixo do gorro e do poncho gaúcho. Apesar da opção preferencial pela montanha, ele trata os dias frios como ofensas pessoais, a conferir no termômetro cada vez que sua sensação térmica baixa um grau.
Na companhia de Rafael e Joana, os dois netos que lhe arrancaram, nas noites de Muri, ainda sem televisão, as histórias de sua juventude em Cataguases. Tornou-se o rapsodo cativo da nova geração, que só dormia com meia dúzia de narrativas com voz empostada e cheia do poc-poc dos cascos, em que os animais e as pessoas tinham nomes reais e biografias verídicas. Nem como avô ele deixava de ser jornalista. De tanto arredondá-las, acabou desentranhando das lembranças o livro “Casos da Fazenda do Retiro”, que saiu na primeira edição com os netos na contracapa.
Em 1985, com o presidente José Sarney, cuja posse antecipara no Jornal do Brasil, na noite de especulação e boataria em que uma crise aguda de diverticulite cancelou, à última hora, a festa de inauguração do governo Tancredo Neves, no fim da ditadura militar. Ele passou a madrugada no apartamento de Sarney. E, às oito horas da manhã seguinte, insone mas abarrotado de informações, ele entrou no ar para contar o que sabia na TV Manchete. “Com uma câmera operada pelo único técnico presente”, conta em seu livro de memórias, falou de improviso, ao vivo, “durante 43 minutos cravados. Não podia tossir, engasgar, espirrar”.
De opa e crucifixo, na procissão alegórica que decora o Memorial José Sarney, no prédio histórico do Convento das Mercês, em São Luís do Maranhão. Ali, o ex-presidente reuniu as lembranças e as testemunhas de seu governo e de sua carreira política. Villas-Bôas Corrêa entrou no mural como padre. Logo ele, que é ateu praticante.
De língua solta, como gosta, numa das palestras sobre política brasileira que viraram calmante do empresariado nacional, durante a instabilidade crônica dos primeiros governos civis. A partir de meados da década de 1980, do governo José Sarney ao mandato-tampão do vice Itamar Franco, quando parecia que o mundo iria acabar a qualquer hora, ele chegou a falar para três auditórios por dia, em vésperas de eleição. Sempre de pé, sem consultar anotações, por horas a fio, como se lesse as palavras num programa Powerpoint que jamais usou.
Com o dinheiro extra dos cachês, na grande safra de palestras, duplicou a casa de Muri, acrescentando-lhe um sótão para ler, escrever, ouvir música ou travar combates corporais com o computador e suas traiçoeiras idiossincrasias. Em troca, levando para o refúgio na montanha seus instrumentos essenciais do jornalismo, livrou-se definitivamente da tentação de criar galinha.
Em 1987, visitando uma escola pública de Tóquio. Cumpriu à risca treze dias de programação oficial, a convite do ministério do exterior japonês. E não descansou enquanto não o levaram a visitar, fora da agenda, uma família japonesa. De todos os países que conheceu, o Japão é o que mais vem à tona em suas conversas.
Num jantar oferecido, em 1991, ao presidente Fernando Collor pelo jornalista Etevaldo Dias, chefe da sucursal do Jornal do Brasil em Brasília. Ainda sem sinais de impeachment no horizonte, Collor falou naquela noite do futuro como se isso lhe pertencesse. Estava em grande forma. E poucos convidados conseguiram tomar-lhe a palavra. Na foto, aparecem os jornalistas Carlos Castello Branco, Murilo Mello Filho, Marilena Chiarelli e Luiz Orlando Carneiro.
Com o presidente Lula, em 2003, num café-da-manhã no Palácio da Alvorada, inaugurando o que seriam encontros regulares, para falar à vontade com jornalistas, mas acabou de repente, quando as crises quase lhe puxaram a toalha do primeiro mandato.
Na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em 1998, no dia em que o compositor Elton Medeiros recebeu a medalha Pedro Ernesto, proposta pelo vereador Edson Santos. Villas-Bôas e Elton, embora tivessem uma antiga admiração mútua, só dez anos antes foram apresentados. E as paixões comuns eram tantas – como a música, a política e Friburgo – que logo selaram a amizade que fez com que o compositor o convidasse para compor, na solenidade da entrega, esta mesa ecumênica, com o padre Max, Paulinho da Viola, o vereador Edson Santos, Dona Zica (a viúva de Cartola), a ialorixá Antonieta dos 7 Riachos e o jornalista Moacyr Andrade.
Com Regina, em 1999, recebendo da câmara municipal a comenda Barão de Nova Friburgo, seu título oficial de adoção pela cidade. Das muitas as condecorações que recebeu, incluindo a coleção completa da Medalha da Inconfidência, essa é a única que entrou para a intimidade doméstica. A família passou a chamá-lo de Barão, desde que ele pendurou o diploma na parede de Muri.
A prova mais radical de que seu coração é mesmo de Nova Friburgo ele deu em 2001, quando saiu do Rio de Janeiro, sem dizer nada, e subiu a serra para se operar com o cirurgião Gustavo Ventura Couto. Durante a viagem, de 130 quilômetros, sentiu-se tonto mais de uma vez, sem poder passar o volante a Regina. Além de não desconfiar do risco de infarto, ela nunca dirigiu automóvel. A foto, tirada no quarto do hospital São Lucas um dia depois do implante de três pontes mamárias, foi publicada no jornal A Voz da Serra, como um atestado de saúde da cardiologia friburguense.
O bom-humor carrancudo de Villas-Bôas Corrêa. Aos oitenta e poucos anos, ele encontrou em Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha, um fotógrafo que montava em seu estúdio cenas de época com figurinos coloniais. Incapaz de resistir à gaiatice, vestiu a farda da Guarda Nacional para o retrato que, como o título de Barão, está emoldurado no escritório de Muri e na porta do fotógrafo.
Em casa, na serra, em meados de 2008, longe da agitação monótona de Brasília, mas perto de suas fontes pessoais de análise e informação, que lhe permitem manter, aos 84 anos, um ritmo de três colunas políticas por semana, fora os textos avulsos, que jamais se recusa a escrever, como se uma horinha a mais de computador não lhe custasse nada.
Em julho de 2008, com a bisneta, Clara, o neto postiço Filipe, que viveu em sua casa até casar, os netos, as noras, o filho e Regina, diante do mirante do lago das vitórias-régias, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, onde uma placa de bronze anuncia o registro de de um novo nome: “Chama-se, desde anteontem, Mirante da Imprensa. Jornalista Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil, 30 de janeiro de 1998”.
Seu primeiro texto publicado em jornal – A Notícia, 27 de novembro de 1947.
E uma amostra de suas primeiras aparições em letras de forma, no jornal do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, (CACO) da Faculdade de Direito, em 1943.
Boletim do aluno Luiz Antônio Villas- Bôas Corrêa no Instituto La-Fayette
O Certificado de Reservista.
Carteira do Ministério da Marinha, como redator do jornal A Notícia.