Cansado, umas vezes irado com a vida, outras apenas desiludido, resolvi partir à procura de nada em lugares que nem tinha ouvido falar. A viagem começou aqui na Internet, passagens baratas em voos pela Google, a companhia mais barata que conheço para as minhas viagens.
Meti palavras sobre palavras e fui parar a S. José, Parque Natural Cabo da Gata-Níjar. Sinceramente já nem me lembro como fui lá parar, mas por via telefónica confirmei que ‘amanhã’ aí estarei. Nina, simpática britânica do outro lado da linha, num espanhol de acento inglês contrastou com o meu portunhol.
Foi preparar um saquinho de coisas simples para um tempo incerto, fato de banho e sobretudo estavam incluídos.
A bicicleta também. Não pensava que ia encontrar um repousante lugar de sobes e desces, entrecruzado por caminhos há muito desenhados nas encostas até aos cumes, num turismo de caminhantes de múltiplas latitudes, idades e capacidades.
Quase sete horas depois de ter partido, passado por Sevilha, Granada e saboreado ao longe a neve de Sierra Nevada, eis -me em San José, 20e picos kilómetros depois de Almería.
Mal descarregado o cansado veículo, foi um rápido mudar de roupas, que o sol brilhava e aquecia fazendo apetecer começar a descoberta. Havia como que uma raiva de ter transportado comigo a ira, a desilusão e o cansaço. Havia uma vontade de os exorcizar num rápida e violentamente possível.
600 metros em descida rápida levaram-me à praia. 800 metros de areia cinzenta, limpa, bordeado dum mar de ondas com quase 5 cm de altura. Transparência azul.
Da varada do apartamento eu já me tinha apercebido que a descer todos os santos ou nenhum ajudam a ir ao centro do ‘pueblo’.
Só tinha que escolher era as subidas para a volta.
Não me ia perder que as dimensões do lugar não mo permitiam.
Tinha era que pensar nas minhas não treinadas pernas para tantos prémios de montanha.
Só tinha que escolher entre metros e força motriz
Mas aqui na praia ainda não era tempo de estar a pensar nesses pequenos grandes pormenores
Tenho que dar ar a estes enervados neurónios.
Tenho que entrar no espírito do lugar.
Tenho que limpar-me das preocupações
Dando aos pedais em 6 km dei a volta à planície do lugar.
Voltei à praia.
à procura de arranjar as forças para me levar colinas acima.
Escolhi o lugar que à noite, tarde para mim, cedo para eles, ia dar de encher ao estômago.
Sobe, façam força, pernas malandras.
Sobe, sobe, perna pedala. Dá o ar da tua força.
Vá lá que escolhi os lugares mais planos para subir.
Mais planos não quer dizer que fossem assim coisas ligeiras.
Pelo menos para mim.
Mas enquanto pedalo já estou a pôr novos mapas, a criar novas ideias, a desenhar novas pistas.
Oxalá as pernas não me desiludam.
Era o que me faltava.
Se eu tivesse uma caravana…
levava-me por tantos caminhos acidentados à procura das planícies para pedalar.
e tinha tempo para olhar a aparente monótona paisagem.
É preciso não esquecer que nem de bicicleta consigo a ir a tantos lugares. Há que caminhar.
Mas o que importa hoje mesmo é circular.
Redondear a vida dos lugares comuns.
Mesmo que tenha que usar de imaginação, mais ainda.
Não é só um sobe e desce mental, hoje transportei-me para um sobe e desce físico real.
Há que dar formas às coisas.
Há que saber estar, seguir, escolher caminhos que me possam trazer para trás quando eu pensava seguir em frente.
e outros que não me levam a lugar nenhum, mas mesmo assim ainda dá para mostrar que a minha cara sabe rir.
Olha-se um mapa.
Escolhe-se a rota.
Se eu fosse com um conhecido meu que andava de teodolito, ou coisa mais moderna, eu saberia por que cotas eu andava. Não andaria para aqui armado em D. Quixote a ver monstros em lugar de moinhos,
nem a minha companheira tem alguma semelhança com o Sancho, caramba
Mas não vim para aqui buscar fantasias nem estudar ruínas.
Vim à procura de lugar nenhum
onde pudesse desarmar o cansaço
arrefecer a ira
e iluminar a desilusão.
Eu quero voltar a sorrir.
para todos os lados
poder olhar para cima
para mais longe
sem ter medo de olhar o mar com olhos de ver mesmo sabendo que ele é igual às minhas lágrimas.
É para isto que eu estou aqui.
onde o espaço parece ser só meu
onde eu me possa encontrar
E aqui estou eu em San José a saborear o olhar.
entrando com ele pelo mar dentro
mas sem perder urbanidade.